O volume único é formado por dois blocos justapostos que se opõem em suas relações com paisagens distintas. Ele representa, na construção tradicional, o enraizamento à montanha e, na parte frontal, com elementos semi-industrializados e referências náuticas, o deslocamento rumo ao mar.
À primeira vista, os dois blocos que formam a casa parecem abrigar espaços servidos e servidores, como num clássico pavilhão bi nuclear: de um lado, voltados para o mar, estariam estar e dormitórios; do outro, orientados para a montanha, os espaços servidores.
Alguns elementos induzem – erroneamente, antecipe-se – a essa leitura. Há um volume aberto e leve, com madeira, aço e vidro, voltado para o mar. Para a montanha volta-se um bloco mais hermético, pesado e com fechamento de alvenaria pintada de branco. Também colabora com essa subdivisão a cobertura, que na frente é leve, estruturada em metal e madeira, com grande beiral cujo forro é formado por placas de MDF pintadas de branco, enquanto na parte do fundo é plana, escondida por platibanda, com beirais de concreto.
A organização do espaço interno já desmonta, parcialmente, essa análise inicial. Se no térreo ela quase se valida, no piso superior os dormitórios não possuem a clássica sequência modernista, com quartos iguais lado a lado. Na realidade, há dormitórios em dois pavimentos e eles se organizam em função da vista, da orientação e de um partido bi nuclear adotado pelos arquitetos em outras residências – que consiste em agrupá-los dois a dois, no piso superior, em núcleos quase simétricos, divididos por uma zona de estar íntima. Esta, por sua vez, interliga-se ao estar principal pelo pé-direito duplo.
No espaço formado entre estas salas em dois níveis concentra-se o núcleo da casa, onde Mario Biselli e Artur Katchborian talvez se aproximem da escola paulista. Neste caso, o grande ambiente criado pelos arquitetos encontrou o entorno adequado: o eixo nordeste-sudoeste, transversal ao pavilhão, permite a transparência através da linha entre o grande caixilho no alto da sala e a varanda posterior, junto à sala íntima. De um lado, o mar; do outro, a montanha.
É justamente no relacionamento da edificação com o mar e a montanha que se concentra o vigor do projeto. “De um lado a construção apoia-se no terreno, enquanto o outro flutua”, diz Biselli. O contraponto entre os dois volumes começa a fazer sentido: se a questão não é interna (espaços servidores e servidos), só pode ser externa. A força da proposta está no relacionamento com o lugar, tanto no enraizamento – a casa incorpora as pedras e árvores do terreno (uma delas brota da piscina) – como na metáfora com que dialoga com o meio natural.
Os elementos do bloco do fundo parecem se agarrar à terra (ou ao continente, à montanha e à mata): as aberturas, o branco e as abas de concreto possuem ar luso-brasileiro, uma ponte entre Álvaro Siza e Joaquim Guedes. Este volume metaforiza a forma convencional-requintada de construir nesta terra, com alvenaria e concreto, e de forma artesanal.
O bloco da frente, por sua vez, parece querer navegar em direção ao mar, em busca de outras terras. Sua construção, semi-industrializada, é quase uma montagem: aço, madeira e vidro. Alguns elementos, como o guarda-corpo, reforçam a diferença entre os volumes: na frente, em vez da alvenaria pintada de branco, ele é em metal e madeira. Lembrando Corbusier, os pormenores possuem requintes náuticos.
Os caixilhos móveis da área de estar, sofisticadíssimos, são de alumínio em montante de madeira. “Aprendi isso com Percival Deimann”, revela Biselli. Já os vidros fixos, que iluminam a parte superior da sala, possuem largos montantes que funcionam como brises verticais. O bloco leve e transparente completa a metáfora, com a busca de Biselli e Katchborian pelo novo, pelo contemporâneo, pelo internacional. Para isso, eles se inspiram em outras terras, bem distantes de além-mar. A cobertura seria a grande vela e o balcão que circunda a casa, e de onde se avista o mar, a proa da embarcação.
Na linha divisória entre os volumes que representam esses dois mundos (moderno/contemporâneo, terra/mar) estão dois elementos que criam um muro-diafragma de luz e afeto: a abertura zenital, que remete à escola paulista, e o revestimento de arenito vermelho, material-fetiche dos autores.
Por SERAPIÃO, Fernando.
LOCALIZAÇÃO
São Sebastião, SP–Brasil
ÁREA
693,00m²
EQUIPE
Mario Biselli, Artur Katchborian, Cristiana Gonçalves Pereira Rodrigues, Natália Celedon
ESTRUTURA E INSTALAÇÕES
Interplanus Engenharia
PAISAGISMO
Natália Celedon
LUMINOTÉCNICA
Scene Light Design
CONSTRUÇÃO
Fazer Engenharia – Fabiano Polloni
FOTOS
Nelson Kon